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Fogos de artifício na Zona Rural

Frei Betto*

12/1/2001

Milhares de brasileiros ingressaram no Ano Novo somando-se, pela TV, aos dois milhões que, na orla carioca, apreciaram a beleza dos fogos de artifício. Pena que a estética prevaleceu sobre a ética e a segurança do público, em Copacabana, não mereceu atenção nem das empresas fogueteiras, nem do poder público.

Em Brasília, o governo FHC ofereceu outro show de pirotecnia ao apresentar os avanços da "reforma agrária". Desta feita, o próprio poder executivo saiu chamuscado. A menos que se considere uma conquista distribuir mais de um milhão de cestas básicas a famílias rurais. Dar alimentos a quem vive no campo é tão humilhante quanto ameaçar de multa os procuradores por cumprirem com o seu dever.

Entre os rojões palacianos, anunciou-se a "redução dos níveis da concentração da terra no Brasil, em escala sem precedentes históricos". Segundo o governo, nos dois últimos anos o grau de concentração da terra no Brasil, medido pelo índice Gini, teria declinado, de 0,848, para 0,802. E o Brasil passado do 5º para o 12º lugar no ranking mundial da concentração da terra. (Quanto mais próximo de "1", o índice de Gini indica maior grau de concentração da terra e, quanto mais próximo de "0", melhor seria a distribuição da terra).

As Estatísticas Cadastrais do Incra demonstram ter havido considerável crescimento da concentração de terra entre 1992 e 1998. Incomodado com essa constatação, o ministro Raul Jungmann decidiu agir como o governo faz com os procuradores: já que se teme punir o criminoso, o melhor é proibir a denúncia do crime. O ministro preferiu desqualificar o trabalho do Incra, condenando a credibilidade das Estatísticas Cadastrais.

Pelas tabelas do Cadastro do Incra de 1992 a 1998, a área total controlada pelos imóveis rurais maiores de 2.000 ha foi ampliada em 56 milhões de hectares. O que equivale a uma extensão três vezes superior aos 18 milhões de hectares que o governo teria desapropriado e transferido para o programa de reforma agrária durante seis anos. Como no caso dos procuradores, a corrupção tende a crescer mais que a apuração.

Segundo estudos do professor Rodolfo Hoffmann, da Unicamp, um dos responsáveis pelo processamento das informações das Estatísticas Cadastrais do Incra, entre 1992 e 1998, à exceção do Centro-Oeste, cujo índice de Gini mantém-se estável, em todas as demais regiões brasileiras ocorreu aumento da concentração de terras. O estudo calculou a porcentagem da área total ocupada pelos 10% maiores imóveis rurais do país, chegando à conclusão de que essa área cresceu, no período, de 77,1% para 78,6%.

O governo gabou-se de haver reduzido a violência no campo, tirando do armário o cadáver de 10 mortos no ano passado. Os números da CPT (Comissão Pastoral da Terra) desmentem o discurso oficial. Demonstram que, comparando-se os números médios anuais dos conflitos de terra, entre 1992-94, com os ocorridos no período de 1995-99, passou-se da ocorrência média de 367 casos/ano, para 667 casos/ano, correspondendo a um crescimento de 82% na ocorrência de conflitos no campo. Nos conflitos de terra constata-se um aumento de 214.653 pessoas envolvidas, na média anual entre 1992-94, para 508.507 pessoas, em média, entre 1995-99, com um crescimento alarmante de 137%.

Os casos de assassinatos declinaram 5%. Passaram de 38 assassinatos anuais, na média, antes de FHC, para 36 casos, na média durante FHC.  Porém, a violência no campo não pode ser medida segundo o número de mortos. Basta ler jornais para se dar conta de casos de trabalho escravo, exploração da mão de obra indígena e infantil, espancamentos, ameaças de morte, salários irrisórios etc.

Talvez a síndrome privatizadora do governo o tenha impedido de gabar-se de um de seus feitos: estatizar a violência rural. Criou o "DOPS rural" na Polícia Federal e, agora, crimes outrora praticados por jagunços e pistoleiros, como em Rio Maria (PA),  são hoje da alçada de forças repressivas do Estado que, acolitadas por juízes cúmplices do latifúndio, como ocorre no Paraná, promovem despejos injustos, ameaçam lideranças, perseguem, torturam, invadem acampamentos, espalhando o terror entre crianças.
 
Os fogos do Planalto encantam os céus, mas aqui na terra o ano de 2000 foi o campeão em número de despejos, prisões ilegais, processos policiais e judiciais forjados. Entre os 14 assassinatos no campo, nada menos do que onze eram militantes do MST. Em l5 anos de existência do movimento, afora os massacres ocorridos, nunca o MST havia perdido tantos militantes assassinados num só ano.

Já que falamos de festas de fim de ano, vamos aos presentes que o governo FHC deu em 2000 aos que defendem a reforma agrária no país: proibiu, por Medida Provisória, a vistoria das terras improdutivas ocupadas por famílias de sem-terra; suspendeu o crédito às famílias vinculadas ao MST; obrigou a CNBB a retirar-se, por decoro, da mediação do diálogo com os sem-terra; impediu a desapropriação de latifúndios inscritos no programa de arrendamento rural; e remeteu ao Congresso pedido de urgência constitucional a projetos de leis como o PLP nº 135/00, que estadualiza o instituto da desapropriação; o PL nº 3.242/00 que impõe maior rigor penal e administrativo às ocupações de áreas públicas, visando intimidar a instalação de acampamentos de trabalhadores sem terra às margens de rodovias.

Enfim, o governo gabou-se de haver assentado, desde 1995, 482.206 famílias. De acordo com a CPT e os relatórios do Incra, a cifra não ultrapassa 237.299. No mesmo período, segundo o IBGE, 840 mil famílias abandonaram o campo (cerca de 4,2 milhões de pessoas), por falta de política agrícola.

O Brasil entra no Terceiro Milênio com a sua história registrando uma única reforma agrária: ao ser dividido em Capitanias Hereditárias. E os procuradores que se cuidem, para não figurarem como procurados.

Frei Betto, 56, escritor e assessor de movimentos sociais e pastorais, atua no Centro pela Justiça Global e é autor, em parceria com Emir Sader, de "Contraversões" (Boitempo), entre outros livros.

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