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CINEMA PARA QUEM PRECISA DE CINEMA

10/01/01
Manifesto lançado pelo MST, CUT e Sindicato dos Jornalistas do DF por 
ocasião do 33º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Estima-se que menos de 10% dos brasileiros freqüentam cinema regularmente hoje no Brasil! Esta é apenas mais uma faceta da nossa indigência cultural e da modernidade tucana.  Este é o contexto em que se realiza este 33º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É pelo menos uma oportunidade para se ver filme brasileiro, oportunidade acessível a cada vez menos gente. Os brasileiros estão praticamente proibidos de assistir cinema nacional, como também do acesso à terra, aos livros, à saúde, ao emprego.

Esse é o resultado da ausência (programada) do Estado na atividade cultural, em nome da liberdade de mercado e da livre concorrência. Liberdade para quem? Os distribuidores de filmes norte-americanos comemoraram a facilidade de importação jamais vista.

O Brasil tem poucas salas de cinema, apenas 1200, mas em processo de fechamento. E essa rede exibidora, em sua maior parte,  está ligada à economia do cinema norte-americano. Este quadro está sendo reforçado com a crescente entrada no mercado dos chamados multiplex (cinemas confinados aos shoppings, destinados aos consumidores compulsórios, sem povo), pertencentes a grupos exibidores norte-americanos, associados ou não a exibidores locais. Está clara a estratégia do capital norte-americano no setor audiovisual.

É em nosso mercado, e no de outros países pelo mundo afora, é que os filmes americanos vêm pagar seus custos, pois lá nos EUA 82% dos filmes americanos vendem menos de 300 mil ingressos. Nem de longe pagam seus elevados custos de produção,   mesmo contando com uma rede exibidora de 35 mil salas e um grande mercado de TV.

A grande capacidade de Hollywood para exportar seus produtos, aliada à mentalidade colonizada e subserviente das elites dos países pobres, é o que transforma em sucessos no mundo inteiro seus prejuízos internos.  O cinema norte-americano ocupa não só a quase totalidade de nossas salas de exibição, durante todos os dias do ano, assim como é deles a maior parte dos filmes exibidos nas TVs e oferecidos nas locadoras.

Chamamos os artistas e técnicos, cineastas, intelectuais, sindicatos, movimentos populares, partidos, clero e militares progressistas e nacionalistas a um esforço para uma tomada de posição contra essa perigosa ocupação audiovisual estrangeira, esmagando nossa cultura e predispondo nosso país a condições mais favoráveis às crescentes intervenções militares-financeiras para transformar diversos países em novas colônias. O audiovisual é parte dessa estratégia de ocupação!!!

 Há saídas alternativas que evidentemente jamais serão assumidas pelos responsáveis (irresponsáveis) pelas políticas de cultura hoje no País.  Para se contrapor a esse rolo compressor é vital e urgente a ampliação do circuito de salas ligado organicamente ao cinema brasileiro, expandindo-se pelo centro e pelos bairros populares, para as cidades do interior, assentamentos rurais, escolas de primeiro e segundo graus, pois, do contrário, os brasileiros vão entender como nacional a dramaturgia estrangeira e vice versa. Ingressos gratuitos ou subsidiados para esse circuito, envolvendo as organizações do movimento social, os sindicatos etc. Aliás, vale perguntar: por quê os organizadores do Festival reduziram a mostra nas cidades satélites? O projeto é cinema para poucos?!

 Para fortalecer o cinema nacional, nem é preciso desviar dinheiro público da educação ou da saúde para o cinema, aliás, como o governo faz para beneficiar os banqueiros e as multinacionais. Os recursos para  superar o bloqueio do cinema brasileiro dentro do Brasil podem vir da justa taxação dos filmes estrangeiros, como é feito em muitos outros países, como os americanos fazem com o sapato brasileiro!

 Um filme como Guerra nas Estrelas ocupou 400 salas, faturou  US$ 30 milhões e deixou no Brasil apenas  R$ 1.090,00!!! Parte do lucro tem que ficar no país para gerar empregos e renda por meio do fortalecimento da indústria local, e também para estruturar a divulgação e a exibição. Outra alternativa para financiamento está no faturamento das emissoras de televisão – concessões públicas - que sempre se alimentam duplamente do cinema. Para as autoridades culturais, que gostam tanto de copiar os EUA, lembramos que lá as TVs são obrigadas por lei a comprar produções locais independentes. Portando, nada mais justo que uma porcentagem do faturamento das TV’s destine-se à indústria brasileira do cinema.

 Alternativas existem, mas não sem a presença indutora do poder público (hoje, só as tevês públicas e um canal a cabo exibem filmes nacionais) na política cultural, sem o que o mercado é a selvageria rebaixadora de conteúdo e de linguagem que aí está. É preciso garantir cota de tela e isto não significa impedir a entrada do audiovisual estrangeiro, como insistem alguns, por ingenuidade ou má-fé. Ao contrário, é a única maneira de assegurar a existência de uma verdadeira diversidade cultural, uma democracia da imagem, permitindo, primeiro, que os brasileiros freqüentem cinema, superando o analfabetismo cinematográfico. E, também,  que conheçam os diferentes cinemas que se produzem no mundo, não apenas o norte-americano que controla 75% das imagens aqui veiculadas.

O neoliberalismo coloca a produção cinematográfica nas mãos das empresas – mesmo com as leis do audiovisual – para definir e rebaixar conteúdo, hostilizar filmes com maior profundidade crítica, independência temática e rebeldia estética. Desse modo, na cultura, as leis de mercado atuam como censura,  provocando a erosão e o empobrecimento cultural!

O cinema deve ser espelho e referência de um povo para admirar e encontrar sua própria identidade. Deve também ser uma alavanca transformadora, permitindo a reflexão sobre sua história, sua realidade e afirmando um projeto de Nação. O cinema não deve dar passagem a nenhum projeto de colonização.

 Brasília, 28 de novembro de 2000

SINDICATO DOS JORNALISTAS PROFISSIONAIS DO DF – SJP-DF
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM-TERRA – MST
CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES – CUT-DF

 

 

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